domingo, 7 de novembro de 2010

"Esqueça" um livro em 08/11


Vi no BLOG da Lú (Mil Faces de Luíza) e depois no BLOG da Vanessa (Vem cá Luísa, em dá tua mão...), e, mesmo sendo difícil abrir mão de um bom livro, vou aderir ao movimento. Portanto, aqui em Rondônia, alguém encontrará um livro que "era" meu! 

"Li algo esta semana no blog Tantos Caminhos que achei muito bacana.
A ideia é esquecer um livro amanhã, 08/11, em algum lugar público. Dentro do livro deve constar um bilhetinho, explicando que o livro foi esquecido justamente para que algum leitor encontrasse-o. Após este leitor ler, deve fazer o mesmo - aí é um pouco mais difícil de saber se deu certo...
Palavras da Isa do Tantos Caminhos: 'E aí, o que vocês acham? Topam participar? Então dia 08/11 fica instituído o dia em que um pequeno grupo de pessoas ajudou a levar um pouco de boa leitura as pessoas. Divulguem em seus blogs, fotografem o livro esquecido, façam um post comentando como foi, deixem um comentário nesse post, simplesmente esqueçam o livro. O importante mesmo é que possamos levar um pouco de boa leitura a outras pessoas'.
Eu adorei a ideia e vou aderir. Amanhã alguém há de encontrar um livro meu por aí...
Depois divido com vocês a experiência".
 

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Cantiga para não morrer



Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.


Ferreira Gullar, in "Dentro da Noite Veloz".

domingo, 31 de outubro de 2010

O preconceito, a verdade e a inocência.


"Ela nos contou o milagre, não o santo". Ângela Vicário, por sua vez, não arredou o pé. Quando o juiz instrutor perguntou, com seu estilo lateral, se sabia quem era o defunto Santiago Nasar, ela lhe respondeu impassível:
- Foi o meu autor.
Assim está no sumário, mas sem qualquer outro detalhe de modo ou lugar. Durante o julgamento, que durou apenas três dias, o promotor pôs o seu maior empenho na inconsistência dessa acusação. Era tal a perplexidade do juiz instrutor ante a falta de provas contra Santiago Nasar que seu bom trabalho parece, por momento, desvirtuado pela desilusão. A folhas 416, de seu próprio punho e letra e com a tinta vermelha do boticário, escreveu uma nota marginal: Dai-me um preconceito e moverei o mundo. Debaixo dessa paráfrase de desânimo, com um traço feliz da mesma tinta de sangue, desenhou um coração atravessado por uma flecha. Para ele, como para os amigos mais próximos de Santiago Nassar, o próprio comportamento do assassinado nas últimas horas foi uma prova cabal de sua inocência.
Na manhã de sua morte, com efeito, Santiago Nasar não tinha tido um só instante de dúvida, embora soubesse muito bem qual seria o preço da injúria que lhe imputavam. Conhecia a índole hipócrita de seu mundo, e devia saber que a natureza humilde dos gêmeos não era capaz de resistir ao escárnio. Ninguém sabia muito bem quem era Bayardo San Román, mas Santiago Nasar conhecia-o o bastante para saber que, sob suas vaidades mundanas, era tão dominado como qualquer outro por seus preconceitos de origem. De maneira que a sua despreocupação consciente teria sido suicida. Além disso, quando soube, afinal, no último instante, que os irmãos Vicário o estavam esperando para matá-lo, sua reação não foi de pânico, como tanto se disse, foi antes a desorientação da inocência.


Do livro do mês, "CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA", de Gabriel García Márquez.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Coragem


O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim:
esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.


João Guimarães Rosa, in "Grande Sertão Veredas".

sábado, 23 de outubro de 2010

Liberdade condicional



Poderás ir até a esquina
comprar cigarros e voltar
ou mudar-se para a China
- só não podes sair de onde tu estás.


Mario Quintana, in "A Vaca e o Hipogrifo".

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Quem será a vilã? Ou o vilão.


LADY MACBETH - Estava bêbada, aquela esperança de que te revestias? Caiu no sono, a tal? E agora ela se acorda, tão pálida e verdolenga, para examinar o que antes fez com tanta liberalidade? Deste momento em diante, calculo que esteja igualmente doentio o teu amor. Tens medo de ser na própria ação e no valor o mesmo que és em teu desejo? Queres ter aquilo que, por tua estimativa, é o adorno da vida e, no apreço que tens de ti mesmo, levas a vida como um covarde, não é assim? Deixas que o teu "Não me atrevo" fique adiando tua ação até que o teu "Eu quero" aconteça por milagre; como a gata, coitadinha, que queria comer o peixe mas não queria molhar a pata.


William Shakespeare, in "Macbeth".

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O nosso mundo


Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!
Pousando em ti o meu olhar eterno
Como pousam as folhas sobre os lagos...

Os meus sonhos agora são mais vagos...
O teu olhar em mim, hoje, é mais terno...
E a Vida já não é o rubro infinito
Todo fantasmas tristes e pressagos!

A Vida, meu Amor, quero vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas, hemos de bebê-la!

Que importa o mundo e as ilusões defuntas?...
Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?...
O mundo, Amor!... As nossas bocas juntas!...


Florbela Espanca, in "Sonetos".