quinta-feira, 17 de novembro de 2011

VERSOS DEL CAPITÁN: la reina


Yo te he nombrado reina.
Hay más altas que tú, más altas.
Hay más puras que tú, más puras.
Hay más bellas que tú, hay más bellas.
Pero tú eres la reina.
Cuando vas por las calles
nadie te reconoce.
Nadie ve tu corona de cristal, cadie mira
la alfombra de oro rojo
que pisas donde pasas,
la alfombra que no existe.

Y cuando asomas
suenan todos los ríos
en mi cuerpo, sacuden
el cielo las campanas,
y un himno llena el mundo.

Sólo Tú y Yo,
Sólo Tú y Yo, amor mío,
lo escuchamos.


PABLO NERUDA, in "Versos Del Capitán".

terça-feira, 8 de novembro de 2011

é ali


É na altura do peito que se fundem razão e emoção. Que se entrelaçam corpo e alma. Não necessariamente nessa ordem. Mas o resultado final dessa mistura, é a alquimia de um sentir mágico na vida.

AMatzenbacher

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Os sentidos da saudade




O quê esperar da saudade
daquela que anda a ver
o tempo passar na relatividade
da eternidade que não está a chegar?

O quê esperar do sentimento
ressentido por não estar vivido
entre a (des)conhecida distância
que impede o olhar, o degustar, o cheirar, o escutar e o tocar?

O quê esperar dos olhos
ao ver aquela beleza angelical
que o tempo e o cogito
lograram para o encontro?

O quê esperar da boca
ao tocar aqueles lábios desejosos
durante o estalar das línguas
nesse vaidoso embate?

O que esperar do nariz
ao se embriagar com o perfume do corpo
envolto a um eau efervescente
numa hipnose extasiante?

O quê esperar dos ouvidos
ao escutar aquela suave e doce voz
falando e cantando
da beleza do passar o dia e do pulsar da vida?

O quê esperar do tato
quando as mãos tenazes e trêmulas
cruzarem tua silhueta
traduzindo o selvagem caminho do teu corpo?

Não sei o quê esperar.
Quem sabe o eterno, e não o fugaz,
Quem sabe o fruto, e não o furto,
Quem sabe o viver, e não o morrer.
A única certeza que tenho:
é que a saudade eu quero afogar
te sentindo em todos os sentidos.

AMatzenbacher

terça-feira, 1 de novembro de 2011

galeano



Vi esse vídeo agora por indicação do Salo, e tive que compartilhar!
Um outro mundo possível.
Show!

domingo, 30 de outubro de 2011

A descartabilidade humana entre Bukowsi e Bauman




PRECISA-SE DE COLHEDORES DE TOMATES EM BAKERSFIELD
"Eu pensava que as colheitadeiras automáticas haviam extinguido esse trabalho. No entanto, ali estava o anúncio. Seres humanos, aparentemente, saem mais barato que máquinas. E máquinas quebram. É isso”. (p. 170)

Em “Factótum”, Charles Bukowski conta a (sua) saga de Henry Chinaski por bicos, pequenos trabalhos, até empregos(!), fazendo de tudo para manter o bucho cheio, alimentar a alma com a bebida, e é claro, escrever. Assim, Buk, para viver seu grande amor (escrever), se depara com a existência de uma condicionante. Uma condição natural que impede a vida, mesmo tendo tempo. Então, é preciso não ter tempo para viver e para aprender a conviver (que significa viver-com). E, para satisfação de uma necessidade natural (o comer condicionante), torna-se necessário o mergulho no mudo capitalista, de submissão a situações, verdadeiramente, humilhantes e degradantes para não se ter tempo a fim de (poder) viver (que coisa não?). É o paradoxo do capitalismo de que fala Zygmunt Bauman, ao comparar o capitalismo como uma cobra que se alimenta do próprio rabo. Ou se é “devorador” ou se é “devorado”, na classificação binária (e realista) de Rosa Luxemburgo. E, nesse meio, é cristalizado o fenômeno da "globalização negativa" (Bauman), que potencializa o (neo)individualismo, enfraquecendo os vínculos humanos e definhando a solidariedade (o fraternité de 1789!) nesse processo parasitário e predatório que se alimenta da energia sugada dos corpos dos próprios indivíduos. Tanto pelo olhar sociológico de Bauman, quanto pelo olhar real-sofrido-literário de Bukowski, nos deparamos na (con)vivência em um completo estado da descartabilidade do humano, da descartabilidade do SER humano, da descartabilidade DE SER humano. Que mundo (é) esse o nosso não?

“Isso era tudo de que um homem necessitava: esperança. Era a falta de esperança que desencorajava um homem. Era de meus dias em Nova Orleans, vivendo de duas barras de caramelo de cinco centavos por dia, ao longo de várias semanas, para ter tempo livre para escrever. Mas passar fome, infelizmente, não melhora a arte. Apenas a obstrui. A alma de um homem está profundamente enraizada em seu estômago. Um homem pode escrever muito melhor após comer um belo pedaço de filé acompanhado de uma dose de uísque do que depois de uma barra de caramelo de um níquel. O mito do artista faminto é um embuste. Uma vez que você percebe que tudo é um embuste, você fica esperto e passa a sangrar e queimar seus semelhantes. Eu ergueria um império sobre as carcaças e vidas destrocadas de homens, mulheres e crianças indefesos – eu os atropelaria. Eu lhes daria uma bela lição!”. (p. 52)

Citações do livro do momento, FACTÓTUM, dele, Buk.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

nada é muito quando é demais(!)


Dizem que a gente tem o que precisa. Não o que a gente quer. Tudo bem. Eu não preciso de muito. Eu não quero muito. Eu quero mais. Mais paz. Mais saúde. Mais dinheiro. Mais poesia. Mais verdade. Mais harmonia. Mais noites bem dormidas. Mais noites em claro. Mais eu. Mais você. Mais sorrisos, beijos e aquela rima grudada na boca. Eu quero nós. Mais nós. Grudados. Enrolados. Amarrados. Jogados no tapete da sala. Nós que não atam nem desatam. Eu quero pouco e quero mais. Quero você. Quero eu. Quero domingos de manhã. Quero cama desarrumada, lençol, café e travesseiro. Quero seu beijo. Quero seu cheiro. Quero aquele olhar que não cansa, o desejo que escorre pela boca e o minuto no segundo seguinte: nada é muito quando é demais.

CFAbreu

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

saber fazer o melhor das oportunidades!


"Sonhe com o que você quiser. Vá para onde você queira ir. Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela tem uma chance de fazer aquilo que quer. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce, dificuldadades para fazê-la forte, triteza para fazê-la humana e esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas, elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos".

CLARICE LISPECTOR

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

convivência

A questão decisiva da espécie humana é a de saber se, e em que medida, o seu desenvolvimento cultural será bem sucedido em dominar o obstáculo à convivência representado pelos impulsos de agressão e autoaniquilamento.

Do livro do momento, O MAL-ESTAR NA CULTURA, de FREUD.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Será que as coisas são o que são? Ou conseguimos ver além. Ou nos iludimos com o desejo inconsciente.


XXIV

O que nós vemos das coisas são as coisas.
Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra?
Porque é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhe chamamos estrelas e flores.

FERNANDO PESSOA, por Alberto Caeiro, in "Obra Poética II".

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Entrevista com Luc Ferry

“A felicidade não existe. Só a serenidade”

Para o filósofo francês, todas as grandes filosofias tentaram fazer com que os homens vencessem seus medos. Hoje, a ecologia se baseia na proliferação do medo

A popularidade do filósofo francês Luc Ferry, 60 anos, também é alicerçada na originalidade de suas frases de efeito. Por exemplo: “A felicidade não existe, o que existe é a serenidade”. Ou: “Todas as grandes filosofias e religiões tentaram fazer com que os homens vencessem seus medos. Hoje, a ecologia política se baseia na proliferação do medo”. Lançada em 2006, Aprender a viver, sua obra de maior sucesso, vendeu mais de 700.000 exemplares em dezenas de idiomas. Entre seus últimos livros estão Famílias, amo vocês e A tentação do cristianismo. Ministro da Educação da França de 2002 a 2004, foi o idealizador da lei que proibiu o uso de véu por estudantes muçulmanas nas escolas públicas francesas. Alto, cabelos negros e ondulados, Ferry expôs, entre uma tragada e outra, um pouco da teoria que mistura filosofia, psicanálise e irresistíveis pitadas de autoajuda.

Qual é o maior obstáculo à felicidade?  

A felicidade não existe. Temos momentos de alegria, mas não existe um estado permanente de satisfação. Separações, a morte de pessoas queridas, doenças e acidentes são inevitáveis. É por isso que a busca pela felicidade plena não faz sentido. O que podemos almejar é a serenidade, algo completamente diferente. Só se atinge a serenidade vencendo o medo. É o medo que nos torna egoístas e nos paralisa, que nos impede de sorrir e de pensar de forma inteligente, com liberdade. Os filósofos gregos costumavam dizer que o sábio é aquele que consegue vencer o medo.

O medo da morte é o maior obstáculo para o homem?  
Existem basicamente três grandes medos. O primeiro é a timidez. Ele aparece, por exemplo, quando somos apresentados a alguém muito importante, ou quando precisamos falar em público. É a pressão da sociedade. O segundo medo são as fobias. Medo do escuro, de insetos, de ficar preso num elevador. O terceiro é o medo da morte. Tememos mais a morte de pessoas que amamos do que a nossa própria morte. Não me refiro apenas à morte biológica, mas a tudo o que é irreversível. O corvo do poema homônimo de Edgar Alan Poe exemplifica isso perfeitamente. Repete a todo momento, como um papagaio, a expressão “nunca mais”. Essa é a morte dentro da vida. Para uma criança, pode ser o divórcio dos pais, já que nunca mais os verá juntos. O nunca mais, a irreversibilidade da vida, nos dá a experiência da morte. A grande questão da serenidade, e não da felicidade, é como vencer esse medo. Toda a filosofia, desde Homero e Platão até Schopenhauer e Nietzsche está baseada na doutrina da serenidade.
Além das fobias conhecidas, existem as modernas?
Vivemos a sociedade do medo. Aos três grandes medos que eu falei, adiciona-se outro, tipicamente ocidental: o medo que se desenvolveu com a ecologia politica. Medo do eleito estufa, do buraco na camada de ozônio, do aquecimento global, de micróbios, da poluição, do fim dos recursos naturais. A cada ano, um novo medo se adiciona a todos os outros: medo da carne vermelha, da gripe aviária, da aids, do sexo, do tabaco, da velocidade dos carros. Os grandes ecologistas e os filmes que tratam do tema têm como objetivo principal trazer o medo. No livro O princípio da responsabilidade, do filósofo alemão Hans Jonas, há um capítulo chamado Heurística do medo. Nele, o medo é descrito como uma paixão positiva e útil. Em toda a história da filosofia ocidental, o medo é o inimigo, é algo infantil, que faz mal. A ecologia inverte essa tradição filosófica ao sustentar que o medo é o começo de uma nova sabedoria e que, graças ao medo, os seres humanos vão tomar consciência dos perigos que existem no planeta. O medo não é mais visto como algo infantilizado, mas como o primeiro passo no caminho da sabedoria. É o que os ecologistas chamam de princípio da precaução. Isso não quer dizer que os ecologistas estejam errados. Há um componente de verdade no que dizem, mas há também muita mentira. Não aceito a ideia de um movimento político que se baseie exclusivamente no medo.
Qual a diferença entre a angústia vista pela psicanálise e pela filosofia?
A filosofia e a psicanálise lidam com angústias distintas. A psicanálise luta contra a angústia patológica, o conflito entre o desejo e a moral, uma tentativa de reconciliar o indivíduo consigo próprio. No entanto, mesmo se atingíssemos uma perfeita saúde mental, depois de 20 anos de análise bem sucedida, restaria a angústia metafísica. Aí começa a filosofia, que ensina a alcançar a sabedoria no sentido da serenidade, não da felicidade.
O que há na filosofia que a religião não tem?
Tanto a grande religião quanto a grande filosofia pretendem fazer com que as pessoas deixem de ter medo. Essencialmente, o que a religião diz é que, se alguém tem fé, se acredita em Deus, não precisa ter medo. Não precisa, por exemplo, temer a morte. As religiões são a doutrina da salvação pela fé. Todas as filosofias querem a mesma coisa: salvar os homens do medo que os impede de viver bem. Só que as grandes filosofias são as doutrinas da salvação sem Deus e sem a fé.
Com a disseminação do medo, ficou mais difícil superá-lo?
A primeira grande resposta a essa pergunta nasce na Odisséia, de Homero. O poema conta como Ulisses vencerá os maiores medos da existência humana: o medo do passado e do futuro. Ulisses, que vive em Ítaca, uma cidade grega, com sua mulher Penélope, precisa partir para a Guerra de Tróia. Fica 20 anos longe de casa, imerso no caos da guerra. A história mostra como Ulisses vai do caos à harmonia, da guerra à paz, do ódio ao amor de Penélope. Durante 20 anos ele se agarra ao passado, ou ao futuro, à nostalgia de Ítaca, ou à esperança de voltar a Ítaca. Quando retorna à terra natal depois de tanto tempo, pode, enfim, viver no presente. Os filósofos gregos diziam que o sábio é aquele que consegue pensar menos no passado e ter menos esperança. Se eu me separar, se mudar de casa, se trocar de emprego. O passado já aconteceu. O futuro é uma ilusão.
Por que o título do seu livro é Aprender a viver?
Houve uma mudança no ensino da filosofia, uma guinada da prática para o discurso decorrente da vitória do cristianismo sobre o mundo ocidental. A partir da Idade Média a religião assume um papel mais importante que a filosofia. Ela detém o monopólio do que é a vida beata, do que é a salvação, e proíbe a filosofia de cuidar dessa questão. É aí que a filosofia se torna apenas um discurso, uma análise de conceitos e não mais uma prática que tem por objetivo ensinar a viver. Escolhi o título Aprender a viver para difundir a ideia de que a filosofia não é apenas um discurso, mas um aprendizado da vida. Resumidamente, a filosofia é uma concorrente da religião e da psicanálise.
O ensino da filosofia deveria ser obrigatório nas escolas? 
Tudo depende da forma como ensinamos. Infelizmente, a maior parte do tempo, ao menos na França, reduzimos a filosofia a um tipo de instrução civil. Apresentamos aos alunos questões sem respostas possíveis: “O que é o belo?”, “o que é o bem?”, “o que é o tempo?”. Isso não tem nada a ver com a filosofia. É uma imbecilidade, uma estupidez. É melhor não ensinar filosofia do que ensinar dessa forma. Se um dia quisermos que as crianças pensem por si próprias, precisamos ensinar a história de grandes visões do mundo. Contar, por exemplo, que na filosofia existem cinco grandes respostas para a pergunta “o que é a vida boa”: a grega, a cristã, a do humanismo moderno, a de pensadores como Nietzsche e a contemporânea. Isso é apaixonante. A filosofia não consiste em tentar construir um argumento para responder a uma questão absurda. A filosofia é aprender a viver.
Como se ensinava filosofia nas grandes escolas gregas? 
Ao contrário do que ocorre nas nossas, nas escolas gregas não havia discursos, mas exercícios de aprendizado da sabedoria. Um exemplo: na escola estóica, no século IV A.C., Zenão de Cítio, o primeiro estóico, pedia a seus alunos que pegassem um peixe morto na feira e o amarrassem em uma coleira para levá-lo para passear como se fosse um cachorro. Quando passavam, quase todos olhavam e zombavam. O que pretendiam? Que os alunos não temessem o que os outros diziam. O sábio não é apenas aquele que vence o medo do olhar alheio, do que os outros pensam. O sábio não se importa com as convenções artificiais dessas “boas pessoas”. Ele desvia o olhar para concentrar-se na natureza, no cosmos. Vive em harmonia com a ordem natural, com ele próprio e com o mundo.
Como ministro da Educação, o senhor provocou controvérsia ao banir o uso de véu pelas estudantes muçulmanas e do solidéu pelos judeus nas escolas públicas. O que o senhor pensa hoje dessa polêmica? 
Na França, a polêmica não foi tão grande quanto nos outros países que não entenderam a nossa posição. Temos a maior comunidade judaica do mundo, depois de Israel e Nova York, assim como temos a maior comunidade muçulmana da Europa. Depois da segunda intifada (2000), que aguçou o conflito entre israelenses e palestinos, houve um aumento enorme de atos violentos dentro das escolas. As crianças muçulmanas se sentiam palestinas, embora fossem francesas. E os judeus retrucavam como sendo israelenses. Mesmo sendo, antes de tudo, franceses. Limitei-me a dizer que, no ensino fundamental, até os 16 anos, todos os sinais religiosos estavam proibidos. Mão só o véu islâmico, mas o quipá e a cruz. A decisão se limitou às crianças, não atingiu as ruas, os adultos. O professor não precisa saber qual é a religião dos alunos, se são judeus, católicos ou muçulmanos. Ao mesmo tempo, temos que lutar pela libertação das nossas mulheres e proteger nossas crianças. O islamismo radical é o nazismo dos nossos dias.

Por que os maiores filósofos do mundo são gregos e alemães?  
Tanto no caso grego, quanto no alemão, o grande motivo é a proximidade entre religião e filosofia. A filosofia sempre foi a secularização e a laicização de uma religião já existente. A filosofia grega, por exemplo, é uma versão secular e laica da mitologia grega. Da mesma forma, toda a filosofia alemã é uma apresentação racional da teologia protestante de Lutero. Ao afirmar “eu não quero ler a bíblia com a tradução latina”, “eu desconfio daqueles que estão no Vaticano”, Lutero resumiu o grande gesto do protestantismo: a busca pela verdade absoluta. Esse gesto abarca toda a filosofia alemã. Antes da filosofia, os dois povos viveram momentos muito importantes na religião. Você não tem isso nos Estados Unidos, nem na França. Ao contrário do que pensam os franceses, Descartes não é um bom filósofo.

Fonte: Revista Veja (em 30/09/2011)

http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/luc-ferry-%E2%80%9Ca-felicidade-nao-existe-o-que-existe-e-a-serenidade%E2%80%9D

 

domingo, 2 de outubro de 2011

Política da solidão


"Algo vai muito mal com a autocompreensão do ser humano sob a crença de que existe um padrão normal dos afetos que calibraria o todo da experiência emocional humana. A crença na normalidade confirma apenas que vivemos mergulhados na incomunicabilidade. Os sentimentos humanos são nebulosos e confusos, mas não são expressos senão por meio de atos desesperados que falam por si mesmos.
[...]
O fenômeno contemporâneo da psiquiatrização da vida nasceu como tentativa de eliminar a estranheza humana. Hoje ele sustenta a indústria cultural da saúde, que se serve do sofrimento humano como a hiena se serve da carniça.
Para os fins do logro capitalista já não basta aproveitar a desgraça do outro, também se pode ajudar a incrementar a produção do infortúnio usando a arma do discurso. A moral une-se à ciência nessas horas e quem paga o preço é o indivíduo humano, do qual se extirpa a capacidade de pensar sobre sua própria vida.
[...]
Mas não há nada de anormal em um indivíduo viver só. A solidão da qual muitos se quixam hoje como um desprazer pode ser para outros tantos um prazer. Viver em comunidade não faz sentido para todo mundo e isso não leva necessariamente à conclusão de antissociabilidade da qual o indivíduo seria a vítima ou o culpado.
[...]
A solidão é, assim, a categoria política que expressa a nostalgia de uma vivência de si mesmo. Ela é, por isso, a tentativa de preservar a subjetividade e a intimidade consigo mesmo que não tem lugar no contexto de relações sociais transformadas em mercadorias baratas.
A sociedade da antipolítica precisa tratar a solidão como uma pena e um mal-estar quando não consegue olhar para a miséria da vez: o fetiche da hiperconectividade, que ilude que não somos sozinhos".

Marcia Tiburi in "Política da solidão", em sua coluna na Revista Cult, n 161, setembro de 2011.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Evitando a morte?! Quem sabe.


"Fiquei sentado no aeroporto, esperando. Não se pode confiar em fotos. Não dá para saber. Eu estava nervoso. Vontade de vomitar. Acendi um cigarro e tossi. Por que eu tinha que aprontar dessas? Não queria saber dela agora. E Mindy estava vindo lá de Nova York. Eu conhecia uma porção de mulheres. Pra que sempre mais mulheres? O que eu estava tentando fazer? Era excitante um caso novo, mas também dava um trabalhão. O primeiro beijo e a primeira trepada tinham uma certa dramaticidade. As pessoas são interessantes no início. Aos poucos, porém, todos os defeitos e loucuradas botam as manguinhas de fora, é inevitável. Começo a significar cada vez menos pras pessoas, e elas pra mim.
Eu era velho e feio. Velho e feio. Vai ver, é por isso que era tão bom meter nas garotas. Eu era o King Kong. Elas ternas e graciosas criaturas. Será que eu tentava brecar a minha descida para a morte? Será que eu pretendia evitar a velhice, o sentimento de velhice, pelo convívio com mulheres mais jovens? Eu só não queria envelhecer mal, pendurar as chuteiras, me dar por morto antes da morte chegar.
O avião de Mindy chegou e manobrou na pista. Me senti em perigo. As mulheres me conheciam por antecipação por causa dos meus livros. Eu me expunha neles. Por outro lado, eu nada sabia delas. O risco era todo meu. Eu podia ser morto. Eu podia ser capado. Chinaski sem as bolas. Poemas de amor de um eunuco.
Fiquei de pé à esquerda de Mindy. Os passageiros passaram pelo portão.
Opa, tomara que não seja aquela.
Ou aquela.
Especialmente aquela, tomara que não.
Aquela ali seria perfeito! Olha só que pernas, que bunda, que olhos...
Uma delas veio até mim. Tomara que seja ela. Era a melhor de todo o rebanho. Eu não teria tanta sorte. Ela chegou e sorriu.
- Sou Mindy.
- Que bom que você é a Mindy.
- Que bom que você é Chinaski.
- Você tem bagagem pra pegar?
- Tenho. Me preparei para uma longa estadia.
- Vamos esperar no bar".

Ele, BUKOWSKI, in "Mulheres".

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

olhar de um domingo qualquer


Ele estava num shopping  center, na metade da tarde, acompanhado de seus próprios pensamentos sem em nada pensar, só andando até chegar na cafeteria mais próxima para um expresso, quando no meio dessa caminhada, passando pela frente de uma sorveteria, ela o parou. Havia grande movimento, pessoas entrando nas lojas e saindo com sacolas de compras, uma criança corria dos pais para encontrar uma tia, outra para entrar na loja de brinquedos, pais na cafeteria, casais seguiam de mãos dadas para o cinema, crianças brincando no playcenter, um avô lendo o jornal, adolescentes tomando sorvete, um casal de idosos conversando, um casal de jovens namorados selava a fidelidade com um beijo, o segurança observada a tudo atenta e pacificamente, afinal era domingo, e os seres humanos geralmente não demonstram preocupações aos dias subsequentes aos sábados, queriam apenas deixar as horas passar ou simplesmente aproveitá-las. E com tantos estabelecimentos que tem dentro de um shopping center, com tantas milhares de pessoas que circulam diariamente por ali, entre tantas horas de funcionamento todos os dias da semana, os caminhos deles se cruzaram. E essas ruas já tinham se tocado antes, com rápidas e simples trocas de olhares sem palavras... Mas neste dia, não foi que ele simplesmente a viu, ou que ela simplesmente o tenha visto. Não foi nada disso que os expectadores conseguiram captar, porque não foi uma simples visão de uma linda mulher, assim como não foi um simples passar de olhos interessado dela por ele. Não foi uma encarada recíproca. E também não foi um mero cruzar de olhares. Foi o encontro. O encontro do olhar. O olhar contido dentro do ver. Aquele olhar forte e penetrante que aproxima, que despe a atração guardada, que declara a pura vontade de se coonhecerem e a nudez do querer. Ela o olhou direta e profundamente nos olhos, e só nos olhos, e ele também, somente a olhou nos olhos, selando o encontro e revelando aquela intensidade da surpresa tão agradável que contém num desses momentos. Segundos. Eternidade. Lembrança que não sai, mas fica. Sentir que dá razão ao sorrir. Finalmente, eles estavam ali, juntos. E de repente, não mais do que de repente, abaixando a cabeça como a espada de um guerreiro pronto para atacar, ela encerrou o encontro, criando o desencontro. Um outro alguém lhe segurou a mão...

AMatzenbacher

PS: De fundo, o solo da música “lovesong” by Adele.

sábado, 24 de setembro de 2011

Poemeto Erótico

Salvador Dalí

Teu corpo claro e perfeito,
- Teu corpo de maravilha
Quero possuí-lo no leito
Estreito da redondilha...

Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa... flor de laranjeira...
Teu corpo branco e macio
É como um véu de noivado...

Teu corpo é pomo doirado...
Rosal queimado do estio,
Desfalecido em perfume...
Teu corpo é a brasa do lume...

Teu corpo é chama e flameja
Como à tarde os horizontes...
É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,
Que em cantigas se derrama...
Volúpia de água e da chama...

A todo momento o vejo...
Teu corpo... a única ilha
No oceano do meu desejo...

Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...

por MANUEL BANDEIRA.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

adorável canalha


É um defeito, mas nada mais delicioso do que ouvir de uma mulher: "CANALHA"!
Ser chamdo de "canalha" por uma voz feminina é o domingo da língua portuguesa. O som reboa redondo. Os lábios da palavra são carnudos. Vontade de morder com os ouvidos. Aproximar-se da porta e apanhar a respiração do quarto pela fechadura.
Canalha, definitivo como um estampido, como um tapa.
Não ser chamado de canalha pela maldade, mas por mérito da malícia, como virtude da insinuação, pelo atrevimento sugestivo.
Não o canalha canalha, mas o ca-na-lha, sem repetição. Único.
Não o canalha que deixa a mulher; o canalha que permanece junto. O canalha adorável que ultrapassou o sinal vermelho para levá-la. O canalha que é rude, nunca por falta de educação, para acentuar a violência do amor. Canalha por opção, não devido a uma infelicidade e limitação intelectual. Canalha em nome da inteligência do corpo.
O canalha. COmo um elogio. Um elogio para dizer que é impossível domesticar esse homem, é impossível conter, é impossível fugir dele. Canalha como pós-graduação do "sem-vergonha".
Bem diferente de crápula, que não é sensual e define o mau-caratismo indelével, ou de cafajeste, alguém que não presta nem para ser canalha de índole egoísta e aproveitadora.
Eu me arrepio ao escutar canalha. Nem perca tempo consultando o Aurélio e o Houaiss, que não incluem o sentimento da pronúncia. Estou falando do canalha que suscita aproximação, abraço, desejo. Um canalha que é um pedido de casamento entre as vogais.
É pelas expressões que se define a segurança masculina. Sempre duvidei de homem que diz que vai fazer xixi. Xixi é coisa de criança. Eu não represo a gargalhada quando um amigo adulto e de vida feita comenta que vai fazer xixi. Imagino o cara sentado. Infantil como Ivo viu a uva. Já urinar é muito laboratorial. Prefiro mijar, direto, rápido e verdadeiro. As árvores mijam. Os relâmpagos mijam, Os cachorros mijam para demarcar seu território. Aliás, o correto é não anunciar, ir ao banheiro apenas, para evitar constrangimentos vocabulares.
Canalha funciona como uma agressão íntima. Uma agressão afetuosa. Uma provocação. Não se está concluindo, é uma pergunta. Canalha é uma interrogação gostosa.
Não ficarei triste se você esquecer meu nome, chame-me de canalha.

Do livro do momento, "Canalha", de FABRICIO CARPINEJAR.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O OLHO: a totalidade da limitação



"O olho vê o mundo, e o que falta ao mundo para ser quadro, e o que falta ao quadro para ser ele mesmo, e, na palheta, a cor que o quadro aguarda; e, uma vez feito, vê o quadro que responde a todas essas faltas, e vê os quadros dos outros, as respostas outras e outras faltas. É tão impossível fazer um inventário limitativo do visível quanto dos usos possíveis de uma língua, ou apenas do seu vocabulário e dos seus estilos. Instrumento que se move por si mesmo, meio que inventa seus próprios fins, o olho é aquilo que foi comovido por um certo impacto do mundo, e o restitui ao visível pelos traços da mão".

MAURICE MERLEAU-PONTY, in "O Olho e o Espírito".

domingo, 11 de setembro de 2011

ANIVERSÁRIO DESTE BLOG: 1 ano


Já que se o poeta francês VICTOR-MARIE HUGO estivesse vivo ele falaria que "comer é uma necessidade do estômago, enquanto beber é uma necessidade da alma", venho CONVIDAR a todos os amigos e amigas, seguidores e seguidoras, interessadas e desinteressados, curiosos e xeretas, que passam por aqui diariamente, semanalmente, mensalmente, trimestralmente, semestralmente ou anualmente, A BEBER!
Isso mesmo, a beber vivências e se embriagar com os sentimentos (confusos ou não) diante das situações e momentos que essa aventura que é viver nos oportuniza, seja degustando palavras, vendo músicas, ouvindo perfumes, cheirando arte, ou no (eterno) embate com a(o) outra(o).
Então, já que não é possível reuní-los em um mesmo espaço ao mesmo tempo, brindo com todos vocês no primeiro aniversário deste BLOG, que nasceu do útero paterno da (in)consciência há um ano atrás.  Brindo, expressa e especialmente com Paulo Ferrareze Filho, Lú, Fernanda Barcellos, Érica, Michele Santti, Andréa Beherengaray, Amanda Lemos, Lolita, Cris, Juliana Carioni, Elisabete Lira, Vanessa Souza Moraes, Lorenna’Lopes, Jr.Fraga, Sara Melyssa, Jannyfer Teixeira, Long Haired Lady, Cristina Lira, Callie, Sabrine Gonçalves, Cátia, Beautiful Battefly Woman, Maria Rita, Fernand’s, Bibiana Benites, Dja, Aline Carla, Malu, Grazielly AB, Evandro Mezadri, Jorge Manuel Brasil Mesquita, Prof. Danielle Prestes De Bortoli, Priscila Yumiko Sakamoto e Diego Vasconcelos.
Um brinde a nós, e àqueles que sabem que possuem suas próprias máscaras.
Beijos a todos,

AMatzenbacher

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

SINCRONICIDADE



PRIMEIRO ATO: o questionamento.

Quantas vezes nos deparamos com determinadas situações, envolvendo ninguéns (des)interessados, alguéns (des)conhecidos, que por algum "q", sem qualquer evidência ou certeza a priori, simplesmente nos marcam?

SEGUNDO ATO: o conceito.

SINCRONICIDADE. Jung disse que o "fenômeno da sincronicidade é constituído, portanto, de dois fatores 1) Uma imagem inconsciente alcança a consciência de maneira direta (literalmente) ou indireta (simbolizada ou sugerida) sob a forma de sonho, associação ou premonição 2) Uma situação objetiva coincide com este conteúdo" (JUNG, C.G. Sincronicidade. Petrópolis: Vozes, 1971, p. 25).

TERCEIRO ATO: o encontro d'ela com ele.

Há um lapso temporal atrás, ela surgiu, radiante. Radiante. Não tem outra palavra que possa descrever aquela graciosidade em forma de ser humano. Ab initio, ele sentiu que aquele "secreto de sus ojos" escondiam, ao passo que também desnudavam, uma missão fundamental

QUARTO ATO: o (des)encontro d'ele com ela.

"Te levarei no aeroporto" estava no sms que ele recebeu. Os ponteiros do relógio passaram... chamar um táxi se fez necessário para não correr o risco dele perder o voo de volta. Ainda pensou: despedidas em aeroportos, portos, estações ferroviárias, estações rodoviárias, são muito emocionantes. Doce ilusão, esperar que despedidas podem ser somente boas ou más, pois elas traduzem um estado do espírito em que, maniqueísticamente, não é possível dar fim. 
Ele não queria nada além daquele sorriso. Além daqueles olhos olhando para ele, harmonizando com a formação na face aquela dança que É o sorriso dela. Mas a flecha (ou não), implacável, impediu que o momento desse encontro se concretizasse. 
Ele sentira o vento invadindo os espaços e o levando dali. 
Ele já previra esse desfecho. 
Mas ele também sabia (não se sabe como) que, se a encontrasse novamente, a (doce) ilusão anterior se transformaria em realidade presente, em tempo verossímil, em sentir vivido.

QUINTO ATO: a perfectibilização do conceito.

Uma translação após, numa quinta-feira qualquer, o embate. E a situação objetiva, no sótão daquele restaurante, coincidiu com o conteúdo inconsciente de maneira direta. Só isso. Nada mais do que isso. Tudo isso. E o sorriso permanece, aqui, e ali. 

SIN-CRO-NI-CI-DA-DE.

SEXTO ATO: o nada e o tudo.

"O 'nada' é, evidentemente, o 'sentido' ou a 'finalidade', e chama-se nada justamente porque em si ele não aparece no mundo dos sentidos, mas é apenas o seu organizador" (JUNG, Sincronicidade, 1971, p. 55).

SÉTIMO ATO: o cara.

O Paulinho [(www.entrehermes.blogspot.com) padrinho do meu BLOG] é foda, porque me  presenteou com essa obra quando estive em Bal. Camboriú no início do mês passado para uma palestra, e me apresentou , definitivamente, para o tal de Jung. E esse "TAO" aí tem razão. E como tem. Foda também.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

(auto)parir



"O homem não pode permanecer criança para sempre; ele precisa sair finalmente para a 'vida hostil'".


Do livro do momento, "O FUTURO DE UMA ILUSÃO" de Freud.

sábado, 3 de setembro de 2011

somente o tempo...


CREONTE - Mas não! Procura entender o meu caso. Reflete primeito nisto: acreditas que alguém preferiria reinar no temor constante em vez de dormir tranquilo desfrutando do mesmo poder? Não nasci com o desejo de ser rei, mas sim de viver como um rei. E assim todo aquele dotado de razão. Hoje, obtenho tudo de ti, sem que me custe nenhum temor: se eu mesmo reinasse, quantas coisas teria de fazer contra a minha vontade! Como então eu poderia achar o trono preferível a um poder, a uma autoridade que não me traz nenhuma preocupação? Não me iludo a ponto de desejar mais do que honraria e proveito. Sinto-me hoje à vontade com todos, todos me cumprimentando, os que têm necessidade de ti vêm antes conversar comigo: para eles, o suecesso está assim garantido. E eu trocaria isto por aquilo? Jamais tive gosto por tal idéia. E tampouco aceitaria aliar-me a quem agisse assim. Se queres a prova, vai a Delfos e pergunta se te transmiti exatamente o oráculo. Se então puderes provar que conspirei com o adivinho, manda-me matar: não apenas tua voz me condenaria, mas nossas duas vozes, a tua e a minha. Não venhas porém, por uma simples suspeita, incriminar-me sem ter-me ouvido. Não é justo tomar levianamente os maus pelos bons, os bons pelos maus. Rejeitar um amigo leal é na verdade privar-se de uma parte da vida própria vida, isto é, daquilo que mais se preza. Mas é preciso tempo para compreender isso de maneira segura. Somente o tempo é capaz de mostrar um homem honesto, enquanto basta um dia para desmanchar um traidor.


Do livro do momento, "ÉDIPO-REI", de Sófocles.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

viver



"Há muitos lugares para serem vistos, muitas pessoas para serem conhecidas. Tudo isso estimula a gente, clareia a cabeça, refresca".

CFAbreu

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

quase amor



Ela diz: "Eu não sei
O que sinto por você
Não quero mais saber
O que você tem a dizer
Agora me deixe em paz
Não tente me entender
Pois pra mim tanto faz
O que ainda pode acontecer"

Mil coisas acontecem ao seu redor
Você não as percebe
Pois não pode distingui-las
Talvez não faça diferença
E o que resta pra você
São somente as coisas
Que você pode suportar
O que podemos suportar?

Não vá pensar que eu chorei por você
Não vá pensar que eu sofri por você
Não vá pensar que um dia amei você

Não vá acreditar, não
Em tudo o que lhe falam por aí
Pois a mentira, um dia ela
Pode lhe ferir, e com certeza vai

Queria consertar, tudo o que aconteceu
Mas na verdade sei que este erro não foi meu
Então destilei meu sangue em algo forte
Pra que eu pudesse me sentir melhor
Mas do contrário eu me senti pior
E usei deste artifício pra ocultar a dor
Por ter perdido um quase amor
Por ter perdido um quase amor

Não não vá pensar que eu chorei por você
Não vá pensar que eu sofri por você
Não vá pensar que um dia amei você
Eu destilei meu sangue em algo forte
Pra que eu pudesse me sentir melhor
Mas do contrário eu me senti pior
E usei desse artifício pra ocultar a dor
Por ter perdido um quase amor
Por ter perdido um quase amor

REAÇÃO EM CADEIA

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

traduzir-se


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
-que é uma questão
de vida ou morte-
será arte?


*Como estou aqui, trago esse poema do poeta maranhense 
FERREIRA GULLAR, in "Na Vertigem do Dia".

terça-feira, 23 de agosto de 2011

VERSOS ÍNTIMOS

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável.

Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma teu fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

terça-feira, 16 de agosto de 2011

sinais de trânsito


os velhos camaradas jogam
no parque olhando o mar ao longe
pondo marcadores ao longo da pista
com gravetos de madeira.
quatro jogam, dois para cada lado
e 18 ou 20 se sentam ao
sol e assistem
percebo isso enquanto sigo
em direção ao banheiro público
enquanto meu carro está no conserto.

o parque abriga um velho canhão
enferrujado e inútil.
seis ou sete veleiros cortam
o mar lá embaixo.

termino a tarefa
saio
e eles continuarm jogando.

uma das mulheres usa uma maquiagem carregada
brincos falsos e fuma
um cigarro.
os homens são muito magros
muito pálidos
usam relógios de pulso que lhes machucam
os pulsos.

a outra mulher é muito gorda
e dá uns risinhos
a cada vez que um ponto é marcado

alguns deles têm a minha idade

eles me enjoam

o modo como espram pela morte
com tanta paixão
quanto um sinal de trânsito.

essas são as pessoas que acreditam em comerciais
essas são as pessoas que compram dentaduras a prazo
essas são as pessoas que comemoram feriados
essas são as pessoas que têm netos
essas são as pessoas que votam
essas são as pessoas que têm funerais

esses são os mortos
neblina e fumaça
o fedor no ar
os leprosos.

esses são afinal quase todos
que existem.

gaivotas são melhores
algas marinhas são melhores
areia suja é melhor

se pudesse posicionar aquele velho canhão
contra eles
e fazê-lo funcionar
eu o faria.

eles me enjoam


Ele, BUK, em "O Amor é um Cão dos Diabos".

sábado, 13 de agosto de 2011

Quantas vezes eu assassinei o amor?


O amor nunca morre de morte natural. Anaïs Nin estava certa.
Morre porque o matamos ou o deixamos morrer.
Morre envenenado pela angústia. Morre enforcado pelo abraço. Morre esfaqueado pelas costas. Morre eletrocutado pela sinceridade. Morre atropelado pela grosseria. Morre sufocado pela desavença.
Mortes patéticas, cruéis, sem obituário e missa de sétimo dia.
Mortes sem sangramento. Lavadas. Com os ossos e as lembranças deslocados.
O amor não morre de velhice, em paz com a cama e com a fortuna dos dedos.
Morre com um beijo dado sem ênfase. Um dia morno. Uma indiferença. Uma conversa surda. Morre porque queremos que morra. Decidimos que ele está morto. Facilitamos seu estremecimento.
O amor não poderia morrer, ele não tem fim. Nós é que criamos a despedida por não suportar sua longevidade. Por invejar que ele seja maior do que a nossa vida.
O fim do amor não será suicídio. O amor é sempre homicídio. A boca estará estranhamente carregada.
Repassei os olhos pelos meus namoros e casamentos. Permiti que o amor morresse. Eu o vi indo para o mar de noite e não socorri. Eu vi que ele poderia escorregar dos andares da memória e não apressei o corrimão. Não avisei ao amor no primeiro sinal de fraqueza. No primeiro acidente. Aceitei que desmoronasse, não levantei as ruínas sobre o passado. Orgulhoso, não me arrependi. Meu orgulho não salvou ninguém. O orgulho não salva; coleciona mortos.
No mínimo, merecia ser incriminado por omissão.
Mas talvez eu tenha matado meus amores. Um serial killer. Perigoso, silencioso, como todos os amantes, com aparência inofensiva de balconista. Fiz da dor uma alegria quando não restava alegria.
Mato; não confesso e repito os rituais. Escondo o corpo dela em meu próprio corpo. Durmo suando frio e disfarço que foi um pesadelo. Queimo o que fui. E recomeço, com a certeza de que não houve testemunhas.
Mato porque não tolero o contraponto. A divergência. Mato porque ela conheceu meu lado escuro e estou envergonhado. Mato e mudo de personalidade, ao invés de conviver com minhas personalidades inacabadas e falhas.
Mato porque aguardava o elogio e recebia de volta a verdade.
O amor é perigoso para quem não resolveu seus problemas. O amor delata, o amor incomoda, o amor ofende, fala as coisas mais extraordinárias sem recuar. O amor é a boca suja. O amor repetirá na cozinha o que foi contado em segredo no quarto. O amor vai abrir o assoalho, o porão proibido, faxinar em sua casa. Colocar fora o que precisava, reintegrar ao armário o que temia rever.
O amor é sempre assassinado. Para confiarmos a nossa vida a outra pessoa, devemos saber o que fizemos antes com ela.

Do livro do momento, "BORRALHEIRO", de Fabrício Carpinejar.

domingo, 7 de agosto de 2011

os imortais


Dos vales terrenos
chega até nós o anseio da vida:
impulso desordenado, ébria exuberância,
sangrento aroma de repastos fúnebres.

São espasmos de gozo, ambições sem termo,
mãos de assassinos, de usuários, de santos,
o enxame humano fustigado pela angústia e pelo prazer.
Lança vapores asfixiantes e pútridos, crus e cálidos,
respira beatitude e ânsia insopitada,
devora-se a si mesmo para depois se vomitar.

Manobra a guerra e faz surgir as artes puras,
adorna de ilusões a casa do pecado,
arrasta-se, consome-se, prostitui-se todo
nas alegrias de seu mundo infantil;
ergue-se em ondas ao encalço de qualquer novidade
para de novo retombar na lama.

Já nós vivemos
no gelo etéreo transluminado de estrelas;
não conhecemos os dias nem as horas,
não temos sexo nem idades.
Vossos pecados e angústias,
vossos crimes e lascivos gozos,
são para nós um espetáculo como o girar dos sóis.
Cada dia é para nós o mais longo.
Debruçados tranquilos sobre vossas vidas,
contemplamos serenos as estrelas que giram,
respiramos o inverno no mundo sideral;
somos amigos do dragão celeste:
fria e imutável é nossa eterna essência,
frígido e astral o nosso eterno riso.


Do livro do momento, "O LOBO DA ESTEPE", de Hermann Hesse.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

o ser em si nos outros

Sou mestre na arte de falar em silêncio.
Toda a minha vida falei calando-me
E vivi em mim mesmo tragédias inteiras sem pronunciar uma palavra...

Aos olhos do artista, o público é um mal necessário;
É preciso vencê-ló, nada mais.


FIÓDOR DOSTOIÉVSKI


(do cardápio de uma livraria em Rio Branco / AC)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

entre o caminho e a distância, a palavra



7.

Llegar a alguna parte no significa
abandonar otra parte.

Arraigar en un país no cura las heridas
del país que abandonamos.

Balbucear otras lenguas no
nos impide balbucear la nuestra.

La palabra que elegimos
no borra la palabra que ocultamos.


EDUARDO CHIRINOS, in "Catorce formas de melancolía" (Peru).

quinta-feira, 9 de junho de 2011

desejo presente



"Dizem que a gente tem o que precisa. Não o que a gente quer. Tudo bem. Eu não preciso de muito. Eu quero muito. Eu quero mais. Mais paz. Mais saúde. Mais dinheiro. Mais poesia. Mais verdade. Mais harmonia. Mais noites bem dormidas. Mais noites em claro. Mais eu. Mais você. Mais sorrisos, beijos e aquela rima grudada na boca. Eu quero nós. Grudados. Enrolados. Amarrados. Jogados no tapete da sala. Nós que não atam nem desatam. Eu quero pouco e quero mais. Quero você. Quero eu. Quero domingos de manhã. Quero cama desarrumada, lençol, café e travesseiro. Quero seu beijo. Quero seu cheiro. Quero aquele olhar que não cansa, o desejo que escorre pela boca e o minuto no segundo seguinte: nada é muito quando é demais".

Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Apaixonar-se e Desapaixonar-se


E assim é numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro. A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a “experiência amorosa” à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço (p. 21 e 22).
Sem humildade e coragem não há amor. Essas duas qualidades são exigidas, em escalas enormes e contínuas, quando se ingressa numa terra inexplorada e não-mapeada. E é a esse território que o amor conduz ao se instalar entre dois ou mais seres humanos (p. 22).
[...] 
O amor é uma hipoteca baseada num futuro incerto e inescrutável (p. 23).
O amor pode ser, e freqüentemente é, tão atemorizante quanto a morte. Só que ele encobre essa verdade com a comoção do desejo e do excitamento. Faz sentido pensar na diferença entre amor e morte como na que existe entre atração e repulsa. Pensando bem, contudo, não se pode ter tanta certeza disso. As promessas do amor são, dia de regra, menos ambíguas do que suas dádivas. Assim, a tentação de apaixonar-se é grande e poderosa, mas também o é a atração de escapar. E o fascínio da procura de uma rosa sem espinhos nunca está muito longe, e é sempre difícil de resistir (p. 23).
[...]
Em suma essência, o desejo é um impulso de destruição. E, embora de forma oblíqua, de auto-destruição: o desejo é contaminado, desde o seu nascimento, pela vontade de morrer. Esse é, porém, seu segredo mais bem guardado – sobretudo de si mesmo (p. 24).
[...]
O amor, por outro lado, é a vontade de cuidar, e de preservar o objeto cuidado. Um impulso centrífugo, ao contrário do centrípeto desejo. Um impulso de expandir-se, ir além, alcançar o que “está lá fora”. Ingerir, absorver e assimilar o sujeito no objeto, e não vice-versa, como no caso do desejo. Amar é contribuir para o mundo, cada contribuição sendo o traço vivo do eu que ama. No amor, o eu é, pedaço por pedaço, transplantado para o mundo. O eu que ama se expande doando-se ao objeto amado. Amar diz respeito a auto-sobrevivência através da alteridade. E assim o amor significa um estímulo a proteger, alimentar, abrigar; e também à carícia, ao afago e ao mimo, ou a – ciumentamente – guardar, cercar, encarcerar. Amar significa estar a serviço, colocar-se à disposição, aguardar a ordem. Mas também pode significar expropriar e assumir a responsabilidade. Domínio mediante renúncia, sacrifício resultando em exaltação. O amor é irmão xifópago da sede de poder – nenhum dos dois sobreviveria à separação (p. 24).
Se o desejo quer consumir, o amor quer possuir. Enquanto a realização do desejo coincide com a aniquilação de seu objeto, o amor cresce com a aquisição deste e se realiza na sua durabilidade. Se o desejo se autodestrói, o amor se autoperpetua (p. 24).
[...]
Um relacionamento, como lhe dirá o especialista, é um investimento como todos os outros: você entrou com tempo, dinheiro, esforços que poderia empregar para outros fins, mas não empregou, esperando estar fazendo a coisa certa e esperando também que aquilo que perdeu ou deixou de desfrutar acabaria, de alguma forma, sendo-lhe devolvido – com lucro. Você compra ações e as mantém enquanto seu valor promete crescer, e as vende prontamente quando os lucros começam a cair ou outras ações acenam com um rendimento maior (o truque é não deixar passar o momento em que isso ocorre). Se você investe numa relação, o lucro esperado é, em primeiro lugar e acima de tudo, a segurança – em muitos sentidos: a proximidade da mão amiga quando você mais precisa dela, o socorro na aflição, a companhia na solidão, o apoio para sair de uma dificuldade, o consolo na derrota e o aplauso na vitória; e também a gratificação que nos toma imediatamente quando nos livramos de uma necessidade. Mas esteja alerta: quando se entra num relacionamento, as promessas de compromisso são “irrelevantes a longo prazo” (p. 28 e 29)
[...]
Comprometer-se com um relacionamento, “irrelevante a longo prazo” (fato de que ambos os lados estão cientes!) é uma faca de dois gumes. Faz com que manter ou confiscar o investimento seja uma questão de cálculo e decisão. Mas não há motivo para supor que seu parceiro ou parceira não deseje, se for o caso, exercitar uma escolha semelhante, e que não esteja livre para fazê-lo se e quando desejar. Essa consciência aumenta ainda mais sua incerteza – e a parte acrescentada é a mais difícil de suportar. Ao contrário de uma escolha pessoal do tipo “pegar ou largar”, não está em seu poder evitar que o parceiro ou parceira prefira sair do negócio (p. 30)
[...]
Primeira condição: deve-se entrar no relacionamento plenamente consciente e totalmente sóbrio. Lembre-se: nada de “amor à primeira vista” aqui. Nada de apaixonar-se... Nada daquela súbita torrente de emoções que nos deixa sem fôlego e com o coração aos pulos. Nem as emoções que chamamos de “amor” nem aquelas que sobriamente descrevemos como “desejo”. Não se deixe dominar nem arrebatar, e acima de tudo não deixe que lhe arranquem das mãos a calculadora. E não se permita tomar o motivo da relação em que você está para entrar por aquilo que ele não é nem deve ser. A conveniência é a única coisa que conta, e isso é algo para uma cabeça fria, não para um coração quente (muito menos superaquecido). Quando menos a hipoteca, menos inseguro você vai se sentir quando for exposto às flutuações do mercado imobiliário futuro; quanto menos investir no relacionamento, menos inseguro vai se sentir quando for exposto às flutuações de suas emoções futuras (p. 37).
Segunda condição: mantenha-o do jeito que é. Lembre-se de que não é preciso muito tempo para que a convivência se converta no seu oposto. Assim, não deixe o relacionamento escapar à supervisão do chefe, não lhe permita desenvolver sua lógica própria e, especialmente, adquirir direitos de propriedade – não deixe que caia do bolso, que é seu lugar. Fique alerta. Não durma no ponto. Observe atentamente até mesmo as menores mudanças naquilo que Jarvie chama de “subcorrentes emocionais” (obviamente, as emoções tendem a se transformar em “subcorrentes” quando deixadas livres das amarras do cálculo). Se notar alguma coisa que você não negociou e para a qual não liga, saiba que “é hora de seguir adiante”. É o tráfego que sustenta todo o prazer (p. 37).
[...]
Assim, viver juntos (“e vamos esperar para ver como isso funciona e aonde vai nos levar”) ganha o atrativo de que carecem os laços de afinidade. Suas intenções são modestas, não se prestam juramentos, e as declarações, quando feitas, são destituídas de solenidade, sem fios que prendam nem mãos atadas. Com muita freqüência, não há congregação diante da qual se deva apresentar um testemunho nem um todo-poderoso para, lá do alto, consagrar a união. Você pede menos, aceita menos, e assim a hipoteca a resgatar fica menor e o prazo de resgate, menos desestimulante. O futuro parentesco, quer desejado ou temido, não lança a sua longa sombra sobre o “Viver juntos” é por causa de, não a fim de. Todas as opções mantêm-se abertas, não se permite que sejam limitadas por atos passados (p. 46).
As pontes são inúteis, a menos que cubram totalmente a distância entre as margens – mas no “viver juntos” a outra margem está envolta numa neblina que nunca se dissipa, que ninguém deseja dissolver nem tenha afastar. Não há como saber o que se vai ver quando (se) a névoa se dispersar – nem se de fato existe alguma coisa encoberta. A outra margem está mesmo lá, ou será ela apenas uma fata morgana, uma ilusão criada pela neblina, uma fantasia da imaginação que nos faz ver formas bizarras nas nuvens que passam? (p. 46 e 47).
Viver juntos pode significar dividir o barco, a ração e o leito da cabine. Pode significar navegar juntos e compartilhar as alegrias e agruras da viagem. Mas nada tem a ver com a passagem de uma margem à outra, e portanto seu propósito não é fazer o papel das sólidas pontes (ausentes). Pode-se manter um diário de aventuras passadas, mas nele há apenas uma ligeira referência ao itinerário e ao porto de destino. È possível que a neblina que cobre a outra margem – desconhecida, inexplorada – se suavize e desapareça, que venham a emergir os contornos de um porto, que se tome a decisão de atracar, mas nada disso é, nem deve ser, anotando nos registros de navegação (p. 47).

ZYGMUNT BAUMAN, in "Amor Líquido".

quarta-feira, 18 de maio de 2011

encontro marcado




A morte é próxima. Nesses dois últimos meses a morte esteve próxima de mim duas vezes: no final de março ela chamou um Amigo, que por vias próprias deu um jeito de ir ao encontro dela, e hoje, ela marcou o inadiável encontro, através de uma porra de doença chamada câncer, com meu Tio.
Meu Amigo se tornou Amigo por outro Amigo. Nesses ditos encontros-abençoados que temos pela vida. Alguém que mesmo por pouco tempo, considerando a infinidade de dias e meses do calendário gregoriano, compartilhou adversidades, venceu obstáculos e torceu pela vitória de coisas simples, as quais demonstravam evitar as pequenas mortes do dia-a-dia. Almoçamos exatamente uma semana antes do encontro. O sentir a vida no decorrer do tempo foi simples, crua e constante.
Com meu Tio, que foi meu Tio mesmo distante estando perto, que esteve junto comigo em diversos reveillons, que torceu junto comigo nas eliminatórias da copa do mundo de 94, bem como nos jogos da copa, que esteve ao meu lado na minha confirmação juntamente com minha Tia, que me parabenizou em dois momentos muito especiais que ele sabe quais são. E que mesmo distante depois de estarmos distante, torceu por mim. A última vez que o vi foi no final do ano passado, e ele já estava lutando contra a doença maldita fazia poucos meses.
Enquanto jantava hoje, não consegui nem ficar observando as pessoas nas mesas todas encasacadas por causa do frio na capital paulista, o ritmo dos garçons para atender a demanda, a decoração do restaurante que não era simplória, nem como ouvir as cordas e bordões tocadas ao vivo no canto do restaurante. Só pensava na morte. E pensava na(s) minha(s) [pequena(s)] morte diante do estado de morte que entristeceu diversos corações nesses últimos dois meses. E confrontei a morte com a vida. E na verdade, o que importa é o que fizemos no nosso tempo diante da própria vida. A nossa história. A protagonização do infinito no presente perpétuo de tudo, porque o encontro com ela [a morte] virá, e isso é inegável e matemático.

terça-feira, 17 de maio de 2011

oco(?)


Corpo sem alma é igual a alma sem corpo.
Só existe em outra dimensão, a da (in)existência.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

(des)encontroS


"A vida é a arte do encontro,
embora haja tanto desencontro pela vida".


Vinicius de Moraes e Baden Powell, in "Samba da Benção".

segunda-feira, 25 de abril de 2011

nascemos com sorte



"Imagine o que seria se um homem tivesse de tentar matar a lua todos os dias", pensou o velho. "A lua corre depressa. Mas imagine só se um homem tivesse de matar o sol. Nascemos com sorte".

Do livro do mês, "O VELHO E O MAR", de Ernest Hemingway.

sábado, 23 de abril de 2011

Amor sí


Cuando dos cuerpos se unen para amar,
se quema más despacio la soledad de la tierra.
De corazón a corazón, de hueso a huseo,
saltan pájaros ardiendo como puñales
piel del mundo o deseo donde a carne gime,
un gran río desnudo de inesperados crisantemos.
Cuando dos cuerpos se aprietan como bocas,
se empujam como voraces cataratas al rumor de la vida
perdiendo un posible contacto con la muerte que espera,
que sobre el olvidado planeta a lo lejos refulge
como un fantasma solitario y oculto.
Hombre o mujer, árboles vibrantes,
hirvientes besos estrujados y un ángel.

Amarse es poseer la tiera sin sombras para siempre.


José Luis Hidalgo, in "Los Animales" (España).

quarta-feira, 20 de abril de 2011

precisando de...


SERENIDADE para aceitar aquilo que não podemos mudar,
CORAGEM para modificar aquilo que podemos, e
SABEDORIA para distinguirmos uma das outras.

terça-feira, 19 de abril de 2011

no metter who you are, no metter when you go in your life, at some poit you gonna need somebody to stand by you...


When the night has come
and the land is dark
and the moon is only ligth we'll see

No i won't be afraid, no i won't be afraid
just as long, as you stand, stand by me
and darling, darling, stand by me, oh stand by me
stand by me, stand by me

If the sky, that we look upon
should tumble and let fall
and the mountains should crumble to the sea

I won't cry, i won't cry, no i won't shed a tear
just as long, as you stand, stand by me
and darling, darling, stand by me, oh stand by me, oh stand by me
stand by me, stand by me

Whenever you're in trouble won't you stand by me, oh stand by me
stand by me, stand by me, stand by me

Darling, darling, stand by me, oh stand by me
stand by me, stand by me, stand by me

Whenever you're in trouble won't you stand by me, oh stand by me
stand by me, stand by me, stand by me


"STAND BY ME", by John Lennon.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

A paixão de Nina in "Cisne Negro"


CONTEXTUALIZANDO
Para começar, quero deixar claro que não sou um cinéfilo. Adoro cinema, mas não tenho vastos conhecimentos, e isso se dá em razão da escolha do quê fazer com o tal do tempo. Todavia, na quarta-feira de cinzas, arrumei um tempo na minha agenda e fui ao cinema assistir o filme “Cisne Negro”. Sabia que o filme tinha sido indicado ao Oscar, na categoria de melhor filme, e que Natalie Portman ganhou o prêmio da Academy Awards de melhor atriz. Confesso que fiquei curioso em assistir o filme, pois queria ver a atuação, premiadíssima, da pequena Natalie Portman.
Conheci a Natalie no filme “Closer” (baita filme, por sinal), e esses dias, comentando sobre o filme com um amigo, fiquei sabendo que o início da carreira dela se deu no filme “O Profissional” (que ainda não assisti, mas assistirei). Ou seja, ela já era mais conhecida há tempos.
Outro amigo foi assistir e disse que o filme era “muito bom”, pois tinha música boa, enredo bom e um final surpreendente, daqueles que não dariam uma propaganda de margarina. Assim, me interessei ainda mais, lembrando que um filme para ser (no mínimo) “bom” tem que transcender as cenas da película e entrar no cérebro da gente para que possamos pensar “o” filme. Então, com a curiosidade engatilhada e a agenda organizada, tinha tudo para ir ao cinema. Quer dizer, quase tudo... Enfim, ingressos comprados, fomos assistir o “Cisne Negro”.

O QUE REALMENTE INTERESSA, É QUANDO O FILME COMEÇA...
Nina (que é a Natalie) é a bailaria quase-perfeita. Ou melhor, uma bailarina quase-morta. Daquelas que ficam dançando ao som de uma musiquinha de ballet naquelas caixas de jóias antigas que as gurias guardam suas bijouterias, muito mais que jóias. Porque embora bonitinha, é aquela mesmice de sempre. A mesma música, os mesmos passos, a mesma feição. A perpetuação da mesmice, a morte estando vivo. E é justamente aqui que reside a quase-perfeição, pois para obter a perfeição é necessário ter uma dose de insanidade. O perfeito é onírico. Só existirá com essa dose de insanidade que liberta os grilhões da filosofia da consciência maniqueísta e binômica permitindo a experiência coexistente (e constante para alguns) de sentir-e-viver. Sim porque, sentir é uma coisa, viver é outra. E sentir que se vive é a experiência avassaladora da comunhão perfeita entre a razão e a emoção. Ou melhor, o gozo harmônico e concomitante dos elementos humanos que Descartes pensou (erroneamente) serem completamente dissociáveis.
Nina era a bailarina quase-perfeita, pois só se preocupava com o passo correto no compasso exato da música. E na verdade, isso é a perfeição para quem pensa que entende de ballet (e das artes em geral). E Nina se achava perfeita e esperava o momento certo para ser convidada a ser a estrela. Só que para ser estrela, não se pode esperar um convite: ou se é, ou se torna por conta própria. Nina só queria uma oportunidade para demonstrar que era uma bailarina “perfeita”. Teve a oportunidade, mas não foi perfeita, porque sua perfeição eram passos e movimentos simétricos às cordas e bordões da orquestra. Faltava-lhe a naturalidade (condicional e condicionante) humana.
Insatisfeito, Leroy (Diretor Artístico da escola de ballet) torna-se o agente provocador, infiltrando-se, não na técnica artística de Nina, mas no circuito razão-emoção. Isso porque Nina era a perfeita “Cisne Branco” e a imperfeita “Cisne Negro”. E o curto-circuito se perfectibiliza na frase que ele fala para ela ainda na primeira metade do filme: “the only person standing in your way is you” (“A única pessoa existente no meio do teu caminho és tu mesmo”). Putaquepariu. Frase objetiva, complexa, forte, sincera e assustadora. E, justamente por isso, ver-da-dei-ra. O thriller psicológico não se instaura entre os personagens diretamente, mas no (infinito) particular de Nina. E essa prov(oc)ação para (se) sentir a Cisne Branco e (se) sentir a Cisne Negro é a impulsão do salto para a vida (glória). Surge a paixão.
Não adianta ter uma oportunidade nas mãos se não se tem a paixão para agarrá-la, aproveitá-la e vivê-la. É a irracionalidade, a condição animal que move o ser humano, que faz com que fiquemos naquele ímpeto de querer e fazer, e não deixar a idéia apenas no campo do pensar e imaginar, no mundo das vontades, no mundo de fantasia, onde a ilusão habita e a falta de coragem não possibilita o êxito ou o fracasso. Na paixão é assim, se há o feedback dá certo, se não há, não dá e ponto. Não existe meio-termo para paixão. Ou se está apaixonado ou não se está apaixonado e ponto final.
Nina amava o ballet mas faltava a paixão de viver-o-ballet. Ela não tinha se apaixonado pelo próprio amor que a fazia acordar todos os dias. E pela pressão de Leroy, Nina acaba desenvolvendo uma esquizofrenia que, para mim, é completamente secundária para o desenrolar do filme. O problema psicológico de Nina não é o foco do filme. Seus pensamentos, seus devaneios, seus delírios, que transformam suas ações em busca de viver e não alcançar a perfeição a partir da técnica tão somente é que são, pois transcende a mera subjetividade cerebral dando comando de ação e atitude àquela bailarina doce, certinha e imperfeita. A esquizofrenia (im)posta à Nina é o que a permite apaixonar-se e, conseqüentemente, viver.
Não é o movimento que define a perfeição, é o fazer o movimento que possibilita atingir o que se quer. E como possibilidade, pode dar certo ou não. Conhecimento, técnica, habilidade e atitude podem definir o talento “naturalizado”. O talento “nato” só existe enquanto paixão. E a paixão tem dois lados: o “amor” e o “ódio”. E somente com a dosagem correta desses elementos é que a paixão transforma-se na glória e o talento se (re)vela, naturalmente, para o mundo. E somente usando as pipetas cerebrais e emocionais, para calibrar mais um deles em detrimento do outro elemento em determinado momento, é que a (almejada) perfeição surgirá tal como a chuva que cai lá fora.
A paixão é irracional, enquanto o amor só pode ser vivido se racionalizado. Na peça (a vida real) não há somente espaço para a racionalidade. Como diria Hegel, “nada de grande no mundo se realiza sem paixão”. E é por isso que as ações mais (in)pensadas são tomadas na condição de (ser-)apaixonado.
Não bastava que dissessem à Nina. Era necessário que ela sentisse. E para sentir é necessário viver. Não estar vivo, mas vi-ver. Tem que ser um apaixonado para fazer as coisas darem certo, mesmo que dêem errado. E aqui não conseguimos fugir do código binário: é ou não é. Se está, ou não se está. É o autoconhecimento puro.
Tal como disse Vinicius em seu soneto terceiro no “Tríptico na Morte de Sergei Mikhailovitch Einstein”: “O cinema é o que não se vê, é o que não é. Mas resulta: a indizível dimensão”. O filme é, minimamente, EXTRAORDINÁRIO. Essa indizível dimensão, da paixão, é exatamente “sentir-se vivo”. Seja pelas palavras de Clarice, seja pelo ballet apaixonado (e apaixonante) de Nina, já sabemos (e por vezes não fazemos), que é aquela velha estória: ou toca, ou não toca. E para sentir-se vivo, deve-se conhecer a morte (ainda que somente enquanto fim). SENTI.